Quando Bogotá (Colômbia) decidiu reorganizar sua mobilidade com base em faixas exclusivas para ônibus, o debate global ainda estava focado no metrô como a única solução estrutural para as grandes capitais. Duas décadas e meia depois, o TransMilenio não é mais apenas um modelo de infraestrutura BRT para se consolidar como um sistema altamente complexo, baseado em governança centralizada, planejamento sistêmico e decisões baseadas em dados.

O TransMilenio foi inaugurado em 18 de dezembro de 2000

Hoje, o sistema permite que mais de quatro milhões de viagens diárias sejam feitas em uma metrópole com mais de oito milhões de habitantes. A frota totaliza 10.559 ônibus, distribuídos ao longo de 114 quilômetros de corredores exclusivos e 138 estações principais. Gerenciando o Sistema Integrado de Transporte Público (SITP), A TRANSMILENIO S.A. estrutura a mobilidade urbana sob uma lógica de rede que articula o componente tronco, os serviços zonais, os alimentadores e o TransMiCable.

A consolidação dessa estrutura de gestão de rede foi decisiva para superar a fragmentação inicial entre modos e contratos. O planejamento começou a incorporar matrizes origem-destino atualizadas com mais frequência e a modelagem de cenários de demanda. Indicadores como regularidade, ocupação, velocidade comercial e confiabilidade deixaram de ser simples métricas de monitoramento e se tornaram instrumentos permanentes de ajuste operacional.

Segundo Maria Fernanda Ortiz Carrascal, CEO da TRANSMILENIO S.A., com a rede já implementada, o foco estratégico mudou da expansão física para a gestão refinada da capacidade.

Os corredores consolidados operam sob supervisão constante, com redistribuição da frota, reforço nos horários de pico e regulação dinâmica do Centro de Controle. A gestão da operação não é mais apenas um desafio operacional e passou a ser uma questão de estabilidade sistêmica.
Maria Fernanda Ortiz Carrascal, CEO da TRANSMILENIO S.A.
Maria Fernanda Ortiz Carrascal, CEO da TRANSMILENIO S.A.
María Fernanda Ortiz, Gerente Geral do TransMilenio, e Dionisio González, Diretor da UITP para a América Latina, durante a celebração do 25º aniversário da TransMilenio (Bogotá, março de 2026)

Inspiração em Curitiba

A base conceitual do TransMilenio dialoga diretamente com o sistema implementado em Curitiba, Brasil, a partir dos anos 70, sob a direção do arquiteto Jaime Lerner. Curitiba possui corredores exclusivos (canais) estruturados, estações de metrô com embarque nivelado e integração física e tarifária na rede. O modelo mostrou que o ônibus podia operar com uma lógica próxima à de um bonde leve, articulando planejamento urbano e transporte público.

Bogotá adaptou esse conceito e o expandiu em escala, densidade e institucionalização. Se Curitiba foi o embrião técnico do BRT moderno no mundo, o TransMilenio representou sua consolidação em grande escala, também com forte visibilidade internacional. Reconhecer essa trajetória é essencial para entender os BRTs como uma inovação latino-americana. Hoje, segundo um relatório publicado pelo UITP em 2025, existem mais de 200 sistemas BRT implementados no mundo.

Sustentabilidade em escala

Nos últimos anos, a agenda ambiental deixou de ocupar uma posição periférica e passou a fazer parte do núcleo estratégico do sistema. O Plano de Desenvolvimento do Distrito estabelece a incorporação de 613 novos veículos de zero ou baixa emissão no SITP. Em julho de 2024, já havia 4.903 veículos nessa categoria. A meta é alcançar aproximadamente 5.516 unidades.

Atualmente, 1.486 ônibus elétricos estão em operação, com mais 711 planejados para 2026–2027. A transição energética se reflete em contratos, infraestruturas de recarga, critérios de manutenção e modelos de financiamento.

Para María Fernanda Ortiz Carrascal, Gerente Geral da TRANSMILENIO S.A. e recém-eleita presidente da Divisão de Ônibus da UIP, esse marco representa uma transição ciclista. “Chegar a este momento significa confirmar que construímos um sistema com maturidade institucional e capacidade de adaptação. O próximo ciclo será definido pela consolidação de uma rede multimodal integrada, ambientalmente sustentável e tecnologicamente robusta. Sustentabilidade não é apenas um objetivo ambiental; É um compromisso estrutural com o planejamento técnico, integração real entre modos e um foco permanente na experiência do usuário.”

Integração e ciclos futuros

A chegada da Primeira Linha do Metrô de Bogotá representa um novo ponto de virada. A integração é estruturada sob a lógica de um único sistema, com integração física, operacional e tarifária.

Ao mesmo tempo, a modernização tecnológica avança com a implementação de um novo centro de controle, a expansão da interoperabilidade nos métodos de pagamento e novos sistemas de informação para os usuários. A comunicação com os passageiros também passou por adaptações, incorporando melhores informações em tempo real e maior transparência em situações operacionais críticas.

Aplicativo oficial e informações em tempo real

O sistema expandiu sua presença digital com o TransMiApp, um aplicativo oficial que coleta informações operacionais para os usuários. A ferramenta permite consultar rotas, horários estimados, localização em tempo real dos ônibus e planejamento integrado de viagens entre tronco, zonal e TransMiCable.

A plataforma utiliza dados de monitoramento operacional para fornecer estimativas dinâmicas e alertas sobre mudanças no serviço. Além disso, o sistema fornece dados padronizados, permitindo que aplicações independentes usem informações atualizadas da rede, aumentando a transparência e o acesso às informações.

Projeção internacional: liderança global e inovação financeira

Após receber reconhecimento especial na edição de 2025, o TransMilenio é novamente finalista do Prêmio UITP 2026, na categoria Estratégia e Planejamento de Transporte Público / Mobilidade Urbana, com o projeto “Emissão de valores mobiliários na Bolsa de Valores da Colômbia”, uma iniciativa voltada para estruturar instrumentos financeiros para aumentar a diversificação das fontes de financiamento do transporte público.

No mesmo contexto de reconhecimento internacional, María Fernanda Ortiz Carrascal foi recentemente eleita presidente da Divisão de Ônibus da UIP.Essa escolha, feita pelos parceiros do UITP, projeta a experiência de Bogotá além da América Latina e destaca sua liderança internacional em descarbonização, governança e modernização de sistemas de alta capacidade.

Aqui estão algumas das perguntas diretas da nossa entrevista com Maria Fernanda:

O TransMilenio começou como um sistema BRT. Em que momento deixou de ser apenas um corredor estruturado e passou a ser uma arquitetura integrada de mobilidade?

O ponto de virada foi a consolidação do SITP. Quando integramos os diferentes modos sob a mesma lógica de planejamento e tarifa, o sistema BRT deixa de ser apenas infraestrutura e começa a funcionar como uma política pública estruturada.

O que significa gerenciar um sistema que canaliza mais de 4 milhões de viagens por dia?

Significa coordenar múltiplos atores e tomar decisões baseadas em dados em tempo real. Não é só operação de ônibus; Envolve modelagem de demanda, supervisão contratual, sustentabilidade financeira e integração entre os modos.

A descarbonização agora é um eixo central. Como garantir que não seja apenas um objetivo teórico?

Integrando a transição energética ao planejamento estrutural. Quando a eletrificação é incorporada em contratos, infraestrutura e modelo financeiro, deixa de ser uma promessa e se torna política pública.

Como será estruturada a integração com o metrô de Bogotá?

Está sendo concebido como um sistema integrado único. O metrô assumirá o papel estruturador com maior capacidade, enquanto o BRT e os demais componentes atuarão de forma complementar, com integração física, operacional e tarifária.

A TransMilenio é finalista do UITP 2026 Awards pelo projeto de emissão de valores mobiliários. Por que recorrer ao mercado de capitais?

Sistemas dessa escala precisam diversificar as fontes de financiamento. A emissão de valores mobiliários amplia a governança, a transparência e a sustentabilidade de longo prazo.

O que muda quando um sistema deixa de ser um modelo e se torna uma referência global?

A responsabilidade aumenta. Decisões locais estão começando a influenciar outras cidades. Isso exige consistência técnica, transparência institucional e a capacidade de entregar resultados verificáveis.

Agora, como chefe da Divisão de Ônibus da UIP, qual será sua prioridade?

Fortalecer o intercâmbio técnico entre nossos parceiros e acelerar o papel fundamental dos sistemas de ônibus na melhoria da mobilidade urbana, sempre focando em priorizar o transporte público, a integração multimodal e decisões baseadas em dados.